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Livre-Arbítrio e tomada de decisão


“Em verdade, não há contradição entre liberdade e determinismo, há uma real complementaridade entre ambos os conceitos. Portanto, a liberdade é, antes de tudo, autodeterminação. Desta forma, a liberdade só tem sentido positivo por seu poder de determinação.”

-Nietzsche

Gostamos de acreditar que somos agentes conscientes, que analisa problemas, pondera entre situações, pesa vantagens e desvantagens. Estamos tão confortáveis com essa definição que sequer notamos o porquê de diversas escolhas que permeiam nossa vida. Saber se somos capazes de fazer escolhas e eleger o nosso caminho, ou se não passamos de joguetes de alguma força misteriosa, tem sido há séculos um grande escopo da filosofia e da religião.

Hoje, a premissa do livre-arbítrio é executada através de todos os aspectos da política, da proteção social ao direito penal. A maneira como a lei atribui responsabilidade às pessoas ou pune criminosos, por exemplo, depende da ideia de que somos livres para tomar decisões, e portanto devemos responder por elas. Mas o que aconteceria se passemos a acreditar que nosso comportamento é o produto inevitável de uma cadeia causal além do nosso controle – um destino predeterminado fora do alcance do livre-arbítrio Estudos recentes analisam o poder de tal crença, assim como, suas implicações morais.

Em dois recentes experimentos, os psicólogos Kathleen Vohs da Universidade de Minnesota e Jonathan Schooler, da Universidade de British Columbia decidiram explorar esta intrigante questão filosófica. Eles selecionaram 30 estudantes e solicitaram que lessem passagens escritas por Francis Crick. A primeira passagem argumentava que a maioria dos cientistas reconhece o livre-arbítrio como um artefato da maneira como o cérebro funciona, que o livre-arbítrio é simplesmente uma ilusão e que nossas ações são determinadas exclusivamente pela genética e pelo ambiente. A segunda passagem discutia a consciência e não trouxe o livre-arbítrio pauta.

Finalmente, os alunos foram convidados a fazer um teste mental de aritmética, computadorizado com vinte perguntas como 1 + 8 + 18-12 + 19-7 + 17-2 + 8-4 = X. Em seguida veio a chave para o experimento: o experimentador disse a eles que havia uma pequena “falha” no computador que fazia a resposta ser exibida logo após a pergunta. Para evitar a falha, os alunos teriam que pressionar a barra de espaço, logo que vissem cada pergunta. Na verdade, o computador gravava ambas as respostas independente da barra ser pressionada. Os resultados foram assustadores: aqueles com convicções mais fracas sobre o poder de controlar o próprio destino eram mais propensos a enganar quando fosse dada a oportunidade, em comparação com aqueles cujas crenças sobre o controle de suas próprias vidas foram deixadas intactas.

Vohs e Schooler, em seguida, deram um passo adiante em busca de resultados mais efetivos. Em um segundo estudo, Vohs e Schooler abordaram a questão de fraude ostensiva com 122 novos estudantes voluntários. Desta vez os alunos foram divididos em 5 grupos, 3 dos quais havia chance de colar. Ao invés de apenas ler uma passagem, um grupo de alunos liam em um folheto quinze frases como "A crença no livre-arbítrio contradiz o fato conhecido de que o universo é governado por princípios legais da ciência", e foram orientados a refletir cada frase durante um minuto antes de virar para a próxima página. Outro grupo lia declarações semelhantes que defendiam o livre-arbítrio, e outro grupo que lia declarações neutras. Dos grupos os quais não havia chance de colar, um -controle - não lia declarações tendenciosas e outro também lia declarações contradizendo o livre-arbítrio. Todos realizaram o mesmo teste, que foi composto por 15 problemas do exame GRE, um rigoroso teste destinado a avaliar os candidatos à pós-graduação.

O grupo determinismo, o grupo do livre-arbítrio, e o grupo neutro fez o teste em grupos de 2 à 5 pessoas. Para estes grupos, foi introduzida uma possibilidade tentadora de trapacear. A pesquisadora informou que teria que sair da sala para uma reunião, e que eles teriam mais de 15 minutos para realizarem o teste. Ela não veria suas folhas de teste: eles deveriam destruí-la em um triturador presente na sala. Em seguida, eles poderiam se auto-premiarem com 1 dólar para cada resposta correta de um envelope de moedas deixado na sala. Os outros dois grupos (o determinismo e o grupo controle) foram testados individualmente, o experimentador anotava sua pontuação e os pagavam com base em seus resultados. Os resultados foram os seguintes:

O gráfico mostra que, quando enviesados pela crença no determinismo os participantes eram mais propensos a trapaça, em comparação de quando eram enviesados pelo livre-arbítrio. O resultado da pesquisa de Voh e Schooler se ajusta à idéia de que as pessoas se comportaram com menos responsabilidade se considerarem que seus atos estão além do seu controle. Se uma pessoa pensa que não há motivo para tentar ser bom, então estará menos engajada a tentar.

Resta-nos indagar: O livre-arbítrio de fato existe? Os autores não vão tão longe, contudo é bastante claro, a partir desta demonstração, que fatores externos tiveram um impacto muito forte sobre o comportamento desses estudantes.

Esta constatação apoia uma defesa do livre-arbítrio montado pelo filósofo Daniel Dennett em seu livro "A Liberdade Evolui". Dennett argumenta, em primeiro lugar, que o livre-arbítrio "não é o que a tradição diz: um poder semelhante a Deus para isentar-se do tecido causal do mundo físico." O livre-arbítrio, ele argumenta, é uma propriedade emergente do cérebro, como a consciência, que nos permite perceber, ponderar e agir sobre escolhas. Na verdade, a escolha, ou até mesmo a liberdade, são sinônimos razoáveis ​​para o livre-arbítrio. Dennett denomina livre-arbítrio "Uma criação que evoluiu da crença e da ação humana" que a humanidade adquiriu recentemente como conseqüência da língua e da cultura, bem como a consciência. O nosso livre-arbítrio cresce junto com o nosso conhecimento, bem-estar material e liberdade política. O ponto mais sutil e profundo salientado por Dennett é que o livre-arbítrio é um "fenômeno objetivo" dependente da nossa crença e percepção.

Referências:

Clement Dennett, D. (2003). A liberdade evolui (1st ed.).

Vohs, K., & Schooler, J. (2008). The Value of Believing in Free Will. Psychological Science, 19(1), 49-54. http://dx.doi.org/10.1111/j.1467-9280.2008.02045.x


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