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Teatro e a Neurociência

Atualizado: 9 de jun. de 2020


Não é de hoje que existe a busca de se conectar os mundos acadêmico, artístico e o da ciência. De modo mais geral, na era contemporânea, há a busca do artista em incorporar na sua prática artística o conhecimento científico para, assim, entender o comportamento humano. Em se tratando de teatro, o interesse pela neurociência vem sendo comum em meio a atores. Essa junção de pensamentos entre essas áreas se iniciou no século XIX com o estudo científico das emoções.

Durante os séculos vários autores foram incorporando as suas pesquisas: práticas médicas, conhecimentos biológicos bem como também a oratória, a expressão e outras práticas teatrais. Já no século XX: “O avanço da reflexologia, o surgimento da psicologia experimental e o início do estudo científico das emoções, somados ao surgimento do encenador e à invenção do treinamento do ator, resultaram na elaboração das primeiras investigações empíricas imbricando a arte do ator e o conhecimento científico” (Calvert, 2014). Legados deixados por pesquisadores americanos, russos e outros que possibilitaram o começo da junção de estudos científicos com as práticas teatrais. “Pela primeira vez em toda a história do teatro ocidental, as artes cênicas e as ciências – tanto humanas como biológicas – transcenderam a literatura para se unirem na prática, criando um inédito campo epistemológico e abrindo caminhos para novas possibilidades estéticas” (Calvert, 2014).

E então chegamos no século XXI, onde a pesquisa em neurociência avança em inúmeros ramos e, com isso, passa a trabalhar em novas áreas e a se aprofundar naquelas onde já havia uma ligação, como a arte teatral: “este novo e verdadeiro diálogo – e não um monólogo a dois – unindo teatro e neurociência é fruto de alguns acontecimentos que destacamos aqui: o desenvolvimento tecnológico na área da imagem médica e da pesquisa microbiológica, a prática da tolerância científica, a revolução neuroplástica, a descoberta dos neurônios espelhos e o progresso do estudo neurocientífico das emoções”(Calvert, 2014).

Com isso, o teatro vem sendo admitido, por alguns neurocientistas, como uma atividade potencial neuroplástica, pois integra motricidade, cognição, percepção sensorial, emoções, etc. Sendo a neuroplasticidade “a capacidade do sistema nervoso modificar sua estrutura e função em decorrência dos padrões de experiência, e a mesma, pode ser concebida e avaliada a partir de uma perspectiva estrutural (configuração sináptica) ou funcional (modificação do comportamento)” o teatro seria uma atividade que engloba diversos fatores que podem levar a um desencadeamento desta, se tornando assim uma possível alternativa de tratamento (por exemplo, a doença de Parkinson).

Já os neurônios espelhos são abordados na prática teatral como parte do trabalho de recepção e participação do espectador. E as imagens médicas puderam ser usadas para identificar qual região cerebral é ativada quando uma pessoa tem certa emoção. “Foi sob o edifício do estudo neurocientífico das emoções humanas que o diálogo entre artistas e neurocientistas passou a transitar entre os palcos de teatro e os laboratórios de neurofisiologia” (Calvert, 2014).

Muitas vezes, ao se pensar em qual emoção o ator quer causar com aquela cena aos espectadores ele deve “saber o que, em termos neurocientíficos, significa uma emoção e quais os mecanismos neurobiológicos envolvidos no desencadeamento de uma resposta emocional” (Calvert, 2014).

Quando falamos em emoções, falamos de vários processos que ocorrem simultaneamente ao interpretá-las, entre eles: alterações do sistema nervoso autônomo, variações nas taxas hormonais e mudanças na produção de neurotransmissores. Além disso, que ocorre com o seu sistema nervoso, também há diversas respostas corporais as emoções sentidas, e essas respostas são interpretadas pelos atores teatrais.

Ao estudar emoções e relaciona-las ao teatro, o estudo passa não só a interpretar as emoções do espectador e como ele as recebe e interpreta, mas também passa a estudar as emoções do ator e como ele as passa. Pois além do que ele está realmente sentido, ele deve transmitir aquilo que a cena exige que ele encene para o público, então a neurociência pode ajuda-lo a trabalhar nisso.

Referências:

CALVERT, D. F. Teatro e Neurociência: o despertar de um novo diálogo entre arte e ciência Rev. Bras. Estud. Presença, Porto Alegre, v. 4, n. 2, p. 223-248, maio/ago. 2014. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbep/v4n2/2237-2660-rbep-4-02-00223.pdf

Neuroplasticidade. Acesso em 15/04/2020. Disponível em: http://cienciasecognicao.org/neuroemdebate/?p=1053

Fonte da imagem: https://blog.estantevirtual.com.br/2018/03/27/livros-de-teatro/ Acesso em 20/04/2020.


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