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A Doença do Século XXI


A depressão afeta mais de 260 milhões de pessoas ao redor do mundo. Com intensidade moderada ou severa, acaba por desencadear diversas condições de saúde sérias, além de afetar os estudos, trabalho, vida pessoal, familiar, entre outros aspectos. Anualmente, 800 mil pessoas tiram suas próprias vidas como resultado de depressão profunda e outras doenças psicológicas, ficando em segundo lugar no ranking de causas de morte de pessoas entre 15 e 29 anos de idade.

Apesar de ser muito bem conhecida e estudada, a depressão ainda é diagnosticada erroneamente em muitos casos, fazendo com que pessoas sejam medicadas desnecessariamente ou não recebam nenhum tipo de tratamento. Em países de baixa e média renda, 76% a 85% das pessoas com sintomas depressivos não recebem qualquer forma de tratamento, seja por falta de recursos, falta de treinamento dos profissionais de saúde ou por causa do estigma social associado com doenças mentais.

Quando o diagnóstico de depressão é confirmado, uma série de tratamentos pode ser aplicado àquele paciente desde terapias psicológicas a prescrição de medicamentos como inibidores seletivos de recaptação de serotonina ou antidepressivos tricíclicos clássicos. O problema é que cada pessoa tem uma série de sintomas diferentes, responde de modo diferente a cada uma dessas estratégias e muitas vezes o paciente passa anos tentando encontrar o tratamento adequado antes de sentir qualquer melhora nos seus sintomas. É estimado que 30% das pessoas diagnosticadas não encontrem tratamento adequado e mesmo para os que encontraram, o tratamento mais eficiente para a depressão têm uma eficiência máxima de 55%, ou seja, 45% dos pacientes submetidos a essas terapias não entram em remissão e não sentem melhora ao longo do tempo.

Assim, o objetivo de uma série de estudos atuais é encontrar uma alternativa que seja eficiente, rápida, segura, tolerável e com efeitos duradouros para todos aqueles que tentaram todos os tipos de tratamento e não encontraram alívio em nenhum, ou seja, casos de depressão resistente a tratamento.

Nos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA) aprovou recentemente um tratamento alternativo denominado rTMS ou repetitive transcranial magnetic stimulation (estimulação magnética transcraniana repetitiva), uma técnica não invasiva de estimulação neuronal direcionada a áreas específicas do cérebro relacionada com a circuitaria dos sintomas depressivos. Apesar de mostrar resultados, cada sessão da intervenção dura 37 minutos e deve ser realizadas diariamente por 6 semanas. Pensando em otimizar o procedimento anterior - diminuindo o número de sessões e o tempo de cada uma - e aumentar a eficiência global da técnica, cientistas de Stanford aceleraram os pulsos e aumentaram a dose de cada pulso, e direcionaram os mesmos para áreas mais específicas ainda do cérebro. O protocolo final consiste em 10 sessões de 3 minutos por dia durante 5 dias seguidos.

Os cientistas aplicaram a técnica - agora refinada - em 21 voluntários entre 19 e 78 anos que apresentavam depressão resistente à tratamento ou estavam passando por um surto depressivo com duração maior que um ano consequente de um transtorno de bipolaridade. Após todas as sessões, os scores obtidos em testes de análise de sintomas depressivos diminuíram drasticamente em 90% dos participantes, indicando que os voluntários realmente se sentiram aliviados após o tratamento. Depois de dois dias do início dos testes já era visível a melhora dos voluntário e depois de 1 mês, 70% dos participantes ainda relataram melhora. Vale acrescentar que não foram reportados efeitos colaterais indesejados após o tratamento, diferentemente de uma série de medicamentos tradicionalmente usados para depressão, bipolaridade e ansiedade.

Porém, algumas ressalvas devem ser feitas sobre os resultados alcançados. Todos os pacientes receberam o tratamento e sabiam que estavam recebendo o tratamento. Sendo assim, suas melhoras podem ser reflexo de um efeito placebo, em que a vontade do paciente de que a intervenção funcione resulta em uma melhora aparente. Além disso, a análise do progresso dos voluntários era inteiramente baseada em relatos próprios, não envolvendo a análise de psicólogos ou psiquiatras que poderiam captar alguma intenção ou sintoma velado.

Apesar disso, é nítida a contribuição do trabalho para a melhora dos pacientes e o seu potencial futuro. Mesmo se o tratamento não for duradouro, pode ajudar milhares de pessoas passando por surtos depressivos e intenções suicidas transitórias que não são aliviados por medicamentos. A ausência de efeitos colaterais é outro fator a ser reconhecido.

Os próximos passos devem envolver a análise mais detalhada de qual fator introduzido pelos cientistas de Stanford foi realmente responsável pelo aumento na taxa de remissão, a aplicação em grande escala e acompanhamento por um período de tempo maior que um mês, para avaliar se os resultados são duradouros ou não.

Os esforços para diminuir a população acometida pela depressão e ajudar aqueles que já foram diagnosticados não para. Somente no ano passado 24 mil artigos foram publicados relacionados com o tema e esse número cresce ano após ano. A Organização Mundial da Saúde por meio do Gap Action Programme auxilia países no aumento de serviços nacionais para pessoas com distúrbios mentais, neurológicos e de abuso de substâncias. Além disso, disponibiliza para profissionais da saúde e instituições manuais sobre como identificar, tratar e apoiar pessoas sofrendo da enfermidade.

Referências:

World Health Organization Fact Sheets: Depression. Disponível em https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/depression. Acesso em 20/04/2020

Cole, E., Gulser, M., Stimpson, K., Bentzley, B., Hawkins, J., Xiao, X., … Williams, N. (2019). Stanford accelerated intelligent neuromodulation therapy for treatment-resistant depression (SAINT-TRD). Brain Stimulation, 12(2), 402. https://doi.org/10.1016/j.brs.2018.12.299


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