top of page

A Ética Animal

Atualizado: 24 de out. de 2021



Todos os anos 115 milhões de animais são utilizados em pesquisas ao redor do mundo, segundo estimativas da Coligação Europeia para o Fim de Experiências em Animais. Fazem parte deste número roedores, animais de fazenda, primatas não humanos, cachorros, gatos, mamíferos marinhos, entre muitos outros, utilizados para pesquisa ou ensino. Mas apesar desse número ser o maior já registrado, a experimentação em animais não é coisa recente. Os primeiros registros datam do século V a.C., quando Hipócrates começou a relacionar a anatomia humana com a dos animais. Desde então, vivissecções e estudos comparativos se tornaram algo banal para os ~homens da ciência~ e no século I d.C. já era considerado algo essencial para a educação de profissionais da área da saúde.


Apesar de Pitágoras em 500 a.C começar a discussão sobre a alma dos animais e afirmar que “os animais dividem conosco o privilégio de ter uma alma”, nunca houve um consenso sobre a presença ou ausência de alma nos animais, ou consciência, ou sensação de dor, ansiedade, medo etc. Isso porque era praticamente unânime o pensamento de que os animais eram seres inferiores e não racionais, como disse Descartes no século XVII:


“Os animais são meras máquinas, autômatas. Não sentem prazer nem dor”


Sendo assim, todo tipo de experimento era aceitável, seja ele para fins educativos e de pesquisa, seja para saciar a curiosidade do ser humano.


Em 1824 surgiu a primeira sociedade protetora dos animais na Inglaterra e em 1876 tinha-se a aprovação da primeira lei a regulamentar a experimentação animal. Ao longo dos anos seguintes diversas publicações e regulamentações começaram a aparecer ao redor do mundo, culminando em 1959 na publicação “O Princípio da Técnica Experimental Humanitária” dos pesquisadores ingleses Russel e Burch - foi aí que surgiu o conceito dos 3R: Replacement, Reduction e Refinement. Até hoje os três Rs são citados em regulamentações nacionais e internacionais.

 
 

Desde então, houveram vários marcos - bons e ruins - relacionados com o tema: a criação da Declaração Universal dos Direitos dos Animais pela UNESCO, a fundação da PETA (“People for the Ethical Treatment of Animals”), o uso de 86 cachorros Beagle em experimentos relacionados com câncer e tabagismo pela Imperial Chemical Industries, uso de animais em testes de acidentes automobilísticos pela General Motors Corporation, uso de coelhos para testes de irritabilidade ocular pelas empresas de cosméticos REVLON, AVON e Bristol-Myers, a criação no Brasil das Comissões de Ética no Uso de Animais, o Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal, entre outros.


Um marco que merece destaque é o caso da talidomida: medicamento receitado para gestantes que sofriam de enjoos matinais. Antes de ser comercializado, o medicamento passou por uma fase de testes em camundongos, onde foi comprovado o efeito hipnótico, somente. Nenhum teste de toxicologia animal foi realizado. Anos após ser liberado para consumo geral de humanos com o slogan “Completamente atóxico, completamente seguro”, constatou-se que uma grande porcentagem das crianças nasceram com malformações ou até sem os membros superiores e inferiores. Na época, foram questionados os protocolos utilizados pelos experimentadores e o poder de extrapolação de resultados de experimentos animais para seres humanos. Outros casos contribuíram para que esse pensamento crescesse na comunidade científica. Substâncias como o chocolate e a aspirina se mostraram tóxicas para animais, mas apresentam benefícios para os seres humanos.


Motivados por esses resultados e por casos de crueldade animal, iniciou-se um movimento mundial pela redução e proibição de testes em animais e junto com ele um pelo desenvolvimento de tecnologias de substituição. Em 1981 foi criado o Johns Hopkins University Center for Alternatives to Animal Testing, com o único propósito de unir a academia, a iniciativa pública e a privada para aplicar os três Rs por meio de tecnologias disruptivas de substituição. O National Institute of Environmental Health Sciences, nos Estados Unidos, desenvolve pesquisas no tema e fornece apoio e incentivo para pesquisadores externos e pequenas empresas.


A empresa de Life Sciences MatTek dominou a técnica de cultura celular 3D e reconstrução de células humanas e desenvolveu o EpiDerm, EpiAirway, EpiAoveolar, EpiCorneal, EpiGingival, EpiIntestinal entre uma série de outras variações de produtos para substituir testes de toxicidade, irritabilidade, sistema de administração de medicamentos etc. que antes eram realizados em animais. Em 2013 cientistas conseguiram criar os mini cérebros - culturas de células complexas que imitam a conectividade de um cérebro totalmente desenvolvido - para estudar doenças como esquizofrenia e Parkinson. E estes são só alguns exemplos.


Mas apesar de anos de dedicação e desenvolvimento de culturas celulares, tecidos humanos, modelos computacionais, programas de voluntários, entre outros, os métodos mais disruptivos continuam sendo caros e complexos, mais caros do que a utilização de animais. Além disso, quando um teste para aprovação de um novo medicamento, por exemplo, fica muito caro ou muito difícil de ser feito em um país por causa de legislações, as empresas preferem por realizá-las em países em desenvolvimento, com regulamentações menos engessadas (ao invés de procurarem novas alternativas).


O Brasil, seguindo o exemplo da União Européia, Índia, Nova Zelândia, Canadá e outros poucos países, conseguiu banir a venda de produtos cosméticos testados em animais no Pará, Amazonas, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul. Mas o uso de animais para pesquisa e ensino ainda é permitido e difundido.


Sendo assim, será que deveriam ser criadas legislações internacionais sobre a experimentação animal? Como será possível conciliar as opiniões e interesses de todos? Como convencer indústrias multibilionárias como as de cosméticos e farmacêutica a trocar suas metodologias de teste para uma mais cara “simplesmente por um problema ético”? As respostas devem vir em questão de anos, talvez décadas, mas para que ocorra a eliminação por completo do uso de animais para pesquisa, precisaremos, primeiro, desenvolver técnicas de substituição que preencham esse nicho de mercado crescente.


Referências:



30 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo
bottom of page