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Cérebros e Computadores — uma ingênua interpretação Neurocientífica da Filosofia da Mente

Por João Caetano




Nerve cells in a dog's olfactory bulb (detail), from Camillo Golgi Sulla fina anatomia degli organi centrali del

sistema nervoso (1885) —




A questão acerca da natureza computacional das funções neurais é uma das metáforas associadas à gênese do pensamento neurofilosófico, ramo contemporâneo e interseccional da filosofia que une as vertentes da filosofia da ciência, da mente, da linguagem e da lógica e metafísica. Os frutos dos avanços em pesquisas do sistema nervoso, em todo o seu espectro de estudo, são vetores de questões que apesar de extremamente científicas, levantam indagações igualmente existenciais e contemplativas. Propor-se a imaginar a unidade cerebral do Homem sob a concepção de um computador moderno é um exercício desafiador de inquestionável profundidade, sob certas óticas teóricas. Para compreendermos este tema, devemos levantar duas concepções diferenciais para o assunto:

Primeira: Há supostamente uma ambivalente relação de causalidade entre “cérebro” e “computador’’, pois há funcionamento aproximado entre hardware-software e cérebro-mente. Para o neurocientista Antonio Pasqualotti, não é absurdo admitir que o computador, ao processar dados por meio de disjunção ou conjunção, possui uma inteligência, mesmo que definida como inteligência artificial, mas, considerando a ordem causal entre cérebro e computador, tratemos do cérebro: O cérebro é uma máquina bioquímico-elétrica. Ao contrário do computador, a mente/cérebro trabalha numa relação entre imprecisão, incerteza e rigor, e cruza rememoração, computação, cogitação. Como é extraordinariamente complexo, o espírito/cérebro trabalha com, por e contra o ruído, o que acarreta riscos enormes de erros, de ilusões, de loucura, mas também chances prodigiosas de invenção e de criação- Morin, 2007. Assim, com as capacidades prodigiosas cerebrais, inventivas e criativas, desenvolvemos o computador artificial, unidade dotada de um conjunto de programações pré-estabelecidas que operam processos funcionais, capazes de aprender, armazenar e prever fenômenos, o que lhe profere não status de inteligência, mas sim, de inteligência artificial. Com essas restrições, o artífice não é ainda capaz de reproduzir um sub-consequente terceiro cérebro artificial, sendo outro argumento favorável à diferenciação entre cérebro e computador. Entretanto, pode se tornar verdadeiro o cenário em que tal comparação é plenamente válida. Através de progressos em Machine Learning e Natural Language Processing, tecnologias similares aos computadores absolutos de Turing, capazes de se autodesenvolver e autogerir de forma a aprimorar-se progressivamente, poderão refinar a I.A. a ponto de tornar a máquina consciente de si, em uma linearidade similar a dos seres humanos, em que o fogo, a sedentariedade e a civilização foram fatores de desenvolvimento escalonado, progressivo e aritmético, tal como o Machine Learning está sendo para a inteligência artificial, mas que ainda não se encontra em seu estado máximo de capacidade atingida.

Já a Segunda Prerrogativa diz respeito sobre a capacidade de se replicar processos mentais em computadores. De certa forma, percebemos que reconhecimento facial, memória, sugestões, previsões, comunicação e mesmo a futura consciência de existência dos computadores é plenamente baseado em nossas próprias capacidades orgânicas e cognitivas. Contudo; “Os computadores são definidos como sendo ou digitais ou analógicos. As máquinas digitais são caracterizadas por realizarem operações binárias; já as analógicas caracterizam-se por realizarem operações com infinitos valores em um intervalo definido. O cérebro humano, ao contrário, combina os processos analógicos e digitais, pois é preciso

associá-los para captar a originalidade do espírito humano”, afirmando, ainda, que “O espírito/cérebro combina, de modo permanente, os processos digitais e os processos analógicos’’. Essas duas qualidades parecem logicamente incompatíveis, pois: “O digital separa, divide, discerne, localiza, mede e desenvolve o campo do mensurável/quantitativo,

em outras palavras; do que se pode discernir, do separável, do localizável e divisível. A analogia liga, associa, conecta, justapõe e desenvolve o campo das evocações, das sugestões, das aproximações, das relações”, segundo o neurocientista Adriano Pasqualotti.

Não é absurdo admitir que o computador, ao processar dados por meio de disjunção ou conjunção, possui uma inteligência, mesmo que definida como inteligência artificial, de capacidades extraordinárias para desempenho de certas funções e de capacidades limitadas para desempenho de outras. O cérebro é uma máquina bioquímico-elétrica que, ao contrário do computador, trabalha com cenários abstratos que variam entre imprecisão, incerteza e rigor, e cruza rememoração, computação e cogitação. Esses fenômenos mentais constituem a Inteligência, que passa a compreender, interpretar e processar estímulos sensoriais livremente em informações complexas que somente existem em plano imaterial. A assimilação interpretativa dos fenômenos, em conjunto às funções cognitivas superiores e à noção de exercício de livre arbítrio, ao menos em campo imaterial, constitui a consciência.

Assim, considerando esse esboço conceitual de Consciência, compreende-se que apesar de inteligente, ainda que artificialmente, o computador não possui capacidade de manifestar consciência fenomenológica de igual refinamento à manifestação da Consciência do Homem. É possível atestar a ausência de caráter atribuível à Consciência ao analisar mais a fundo a configuração em que se dá a Inteligência Artificial: para que a I.A. aprenda, é necessário que softwares arquitetados por cientistas da computação configurem uma assimilação multi-fatorial de estímulos que torne possível que o artífice gere interpretações da própria existência, o que implica que seus próprios questionamentos possíveis sejam previamente programados, diferente dos questionamentos gerados pelo cérebro consciente, que são inerentes, incessantes e de origem dependente somente à própria existência.

Em outras palavras, consciência é, sob a ótica na qual compreendo a questão da consciência dos computadores, reconhecer-se enquanto “ser”, ainda que não se atribua razão de natureza e/ou sentindo a esse reconhecimento, enquanto continua questionando-se. O ser é, sabe que é, mas não entende o que é, o que torna o ser consciente e, que portanto, igualmente torna o computador inconsciente. Logo, entende-se que buscar a comparação entre Cérebro e

Computador é uma manifestação da analogia órfã do Homem em sua condição da miséria humana, a sensação da ausência cósmica de origem, a eterna síndrome do anseio por uma história e sentido existencialista delimitável. Desenvolver a tecnologia da I.A. é um método de mecanismo compensatório a fim de resolver cientificamente essa crise de identidade que existe e que a filosofia e a religião se propõem a resolver há muito tempo. Recriar e desenvolver ao máximo essa tecnologia nos permitirá protagonizar enfim o papel de criador e atribuir ao papel de criação o computador.

Não se tratando de nada além de atribuições conscientes arquitetadas para fins compensatórios, é possível visualizarmos que a afirmação acerca da natureza essencialmente cerebral de computadores possui comparação válida, que, entretanto, mostra-se ainda equivocada, considerando o atual estado da consciência computacional. Ainda assim, os avanços acerca da ascendência da I.A. em direção a uma consciência relativamente próxima ao entendimento de consciência humana é promissor sob ambas óticas filosófica e científica e será um fenômeno divisor de águas no curso da Humanidade.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

PS Churchland, TJ Sejnowski (1994). The computational brain; The MIT Press, Cambridge, Massachusetts.

PS Churchland - (1989). Neurophilosophy: Toward a unified science of the mind-brain The MIT Press, Cambridge, Massachusetts.

Boden, M., Ed. (1990). The Philosophy of Artificial Intelligence. Oxford: Oxford University Press.

Fodor, J. A. (1981). Representations: Philosophical Essays on the Foundations of Cognitive Science. Sussex: Harvester Press.



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