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Transhumanismo: ultrapassando limites naturais

Atualizado: 15 de set. de 2021



O transhumanismo é uma área de estudo que busca investigar as descobertas que envolvem o aprimoramento da condição natural humana. Normalmente, essas condições são obtidas através de técnicas e procedimentos utilizados para reduzir as diferenças entre as pessoas estatisticamente abaixo do padrão normal e pessoas dentro do padrão estatístico normal, reduzindo as desigualdades físicas e psicológicas, por exemplo, a fim de que os cidadãos estejam cada vez mais nivelados. O principal ponto é que, o uso dessas técnicas em pessoas com algum tipo de déficit pode causar o nivelamento, mas o uso delas nos indivíduos normais pode propiciar um desempenho acima do natural, o que muito denominam de transhumanismo.


Existem diversos exemplos de técnicas que podem ser analisadas dessa forma. Um exemplo disso é o caso do corredor Oscar Pistorius, um corredor profissional, que já participou dos jogos olímpicos. O caso de Pistorius é bastante interessante porque ele é conhecido por não ter as duas pernas e competir igualmente com atletas não paralímpicos, fazendo uso de próteses de carbono. A questão analisada é o fato dessas próteses serem mais leves do que as pernas normais, originando uma velocidade 15% superior e uma necessidade de força 20% menor do que o normal. Ou seja, com esses dados, a prótese apresenta uma superioridade em relação ao padrão natural humano, analisando por esse ponto.


A EMT (estimulação magnética transcraniana), um tipo de neuromodulação não invasiva que tem sido utilizada como objeto para os mais diversos tipos de estudo, também pode ser citada como exemplo. Nesse caso, os pacientes dentro do padrão estatístico que fazem o uso desse tipo de intervenção podem ter algum tipo de benefício, até cognitivo. Então os pacientes com algum tipo de déficit poderiam estar sempre abaixo dessas pessoas normais que fazem o uso de intervenção, no caso da EMT, ainda há o caso de pacientes epiléticos, que não podem fazer o uso da técnica pelo risco de efeitos colaterais.


Os implantes cocleares são outro exemplo. Eles são utilizados para reduzir o déficit auditivo em pacientes com transtornos relacionados a esse sentido. Os pacientes normais através dessa técnica poderiam desenvolver um ouvido com super foco, por exemplo, tendo uma superioridade em relação às demais pessoas.


Bom, os três casos são a primeiro modo, de áreas diferentes, mas podem se relacionar ao mesmo assunto, o transhumanismo. O caso de Pistorius é empolgante por um atleta originalmente paralímpico poder competir dentro de uma categoria olímpica, mas isso seria justo equivalência ou vantagem? A alta performance é algo ainda mais profundo dentro do esporte, é o nível mais alto de desempenho em qualquer atividade. Baseado nisso, será que algum atleta poderia realizar a amputação de suas pernas se comprovado que as próteses são mais eficazes do que as pernas normais? No caso da EMT, a restrição aos epiléticos e o uso por parte de pessoas com outros tipos de distúrbios geraria uma exclusão se pessoas sem qualquer déficit fizessem o uso dessa técnica? Os implantes cocleares propiciam uma melhora auditiva para pacientes com déficit, especialmente em crianças. Mas, será que pessoas normais com essas técnicas não seriam superiores em relação aos pacientes com distúrbio auditivo e até obteriam um aprimoramento cognitivo além do natural? Nesse caso, ainda existe a cultura da linguagem de sinais e todo um movimento para a preservação dela, enaltecendo que o déficit auditivo torna apenas um ser humano diferente dos outros. Ainda assim, um paciente com perda auditiva ou até mesmo com o implante coclear estaria em desvantagem pela necessidade da aprendizagem de uma língua nativa e da língua de sinais?


O aprimoramento humano acompanha a condição humana, há não muito tempo existiam pessoas que acreditavam que se um atleta corresse abaixo da barreira dos 100m em 10s suas pernas começariam a se desfazer. Hoje, mais de um atleta já ultrapassou essa barreira e não é mais algo tão extraordinário quanto antes. Existe sempre uma busca pela alta performance nas mais variadas atividades, ainda mais com o surgimento da internet, de diversas tecnologias e das infinitas possibilidades de geração de novos dispositivos. No entanto, toda essa discussão traz consigo algumas dúvidas e o transhumanismo sempre trará consigo o debate e as inúmeras críticas. Até que ponto isso pode ser considerado normal? O quanto isso pode ferir a liberdade do indivíduo de pensar, de raciocinar naturalmente, conforme sua ontogenia e sua criação? O quão a desigualdade iria se agravar com o advento de novas tecnologias, visto que nem todos no mundo teriam condições financeiras e estruturais para obter tal aprimoramento? Como essa diferença seria tratada dentro das mais diversas culturas? Qual a amplitude dessa vantagem em relação aos humanos naturais, que não fazem qualquer uso de dispositivos ou técnicas visando o aperfeiçoamento? Essa diferença seria muito grande?


A sociedade sempre busca seu aprimoramento e o desenvolvimento de novas tecnologias visando esse ponto é praticamente inevitável. O transhumanismo carrega consigo esse foco, o aprimoramento, porém também traz algo ainda mais importante, a discussão sobre a viabilidade de seus próprios desenvolvimento e aprimoramento.


Referências:


Zehr, E., (2015). The Potential Transformation of Our Species by Neural Enhancement. Journal of Motor Behavior, 47(1), p.73-78.

Lee, J., (2015). Cochlear Implantation, Enhancements, Transhumanism and Posthumanism: Some Human Questions. Science and Engineering Ethics, 22(1), p.67-92.




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